quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Barbárie divina


     Imagine-se em sua casa com seus filhos – um de digamos 10 anos e o outro de 04, sua esposa e um amigo. Todos antes da refeição, vão para um cômodo onde há uma grande imagem do Deus hurakán, todos se curvam respeitosamente, e a matriarca da família dirige a ele uma oração: “Nosso adorado hurakán, senhor dos mundos, agradecemos as boas e perfeitas dádivas que nos concede generosamente, e se achamos favor aos teus olhos que a tudo vêem, solicitamos que continue a nos proteger e abençoar. Destrua nossos inimigos, arruíne nossos perseguidores a fim de que todos conheçam teu poder e sua justiça”.
Após a oração todos chegam perto da imagem enorme: corpo de homem, forte e atlético, cabeça com cabelos cumpridos dando a impressão de serem levados pelo vento. Um de seus braços estendidos com a palma da mão aberta, onde havia um receptáculo com um instrumento afiado para corte. Em fila um a um pega o instrumento e passa por alguma parte do corpo, derrubando um pouco de seu sangue no receptáculo, como oferenda a hurakán.
     Depois da refeição o menino menor vai para os fundos da casa brincar com seu cãozinho, enquanto o mais velho fica sentado em volta da mesa ouvindo estórias antigas que passava de geração a geração.
     Subitamente, um estrondo terrível é ouvido, e sem mesmo terem tempo de entender o que estava acontecendo, todos se viram cercados por pessoas estranhas com espadas enormes em punho. Ao se levantar para tentar dar ou conseguir alguma explicação o pai da família tem sua cabeça separada do corpo por um golpe desferido contra ele. Ao ver a cena o garoto mais velho começa a gritar e é calado por um golpe aplicado de cima para baixo, que praticamente abre seu pequeno crânio ao meio. Neste instante entra correndo o filho mais novo, atraído pelo forte barulho. Quando entra no cômodo, um dos enormes brutamontes que estava ali o agarra, derrubando o ao chão, em seguida pisa com seu imenso pé sobre o pescoço do infeliz garotinho, que morre quase que instantaneamente. Após tirarem a vida de todos, inclusive do cãozinho, ateiam fogo na casa, deixando para trás apenas um rastro de pó e cinzas.
     Essa estória, que poderia muito bem ser uma história, retrata bem as narrativas bíblicas, porém com o foco ligeiramente alterado. Ao invés de se narrar a estória de fora para dentro ou seja do ponto de vista de quem mata, a estória foi contada do ponto de vista de quem morre.
Quantas passagens há em que o Deus bíblico ordena que se invada uma cidade, matando todos seus habitantes, devotando a destruição de maneira bárbara, homens, mulheres, crianças, animais, ou seja, tudo. Essa visão de um Deus cruel e sanguinário raras vezes é apresentada às pessoas. O que se diz é que o Deus de Israel é um Deus justo e verdadeiro. As passagens mais citadas em cultos e reuniões congregacionais são de atos benevolentes. Quando mencionada suas leis, citam-se as que demonstram justiça, mas deixam de fora leis que crassamente demonstram: preconceito, injustiça, incoerência. Podemos citar alguns casos:
1º) Não deves assassinar – No passado, imperava a lei do olho por olho, dente por dente. Caso um homem matasse deliberadamente um semelhante, sem falta deveria ser morto. Isso de certa forma até pode parecer um tanto quanto justo. O fato, porém é que se um homem matasse deliberadamente um outro homem que fosse seu escravo, e fugisse por um ou dois dias, ninguém poderia encostar-lhe as mãos, pois segundo o que se acha escrito na bíblia, o escravo era seu dinheiro, e, portanto não poderia ser morto. A justiça para um homem livre era diferente da justiça do escravo, embora ambos, tanto escravo como homem livre, adorassem o mesmo Deus.
     Outra lei bastante controversa era sobre como proceder com um escravo:
Todo dono de escravo, deveria libertar o mesmo, após um período de 7 anos de serviços prestados. (Normalmente o escravo era adquirido no seu vigor juvenil) se o escravo adquirido fosse casado ou tivesse filhos, então ao ser liberto poderia levar sua esposa e filhos. Caso, porém o escravo recebesse sua esposa de seu amo (ou se casasse enquanto servia seu dono) ao ser liberto, tanto sua esposa, como eventuais filhos que pudessem ter, ficariam com seu dono.
É claro que havia uma possibilidade de ficarem juntos. Bastaria o escravo renunciar sua liberdade, e ser escravo para sempre de seu dono. Bastante prático não é mesmo, e muito justo também (é claro que para o dono do escravo).
     E tem mais, caso uma menina, uma moça, fosse vendida como escrava, e seu proprietário a tornasse uma concubina, vindo com o passar do tempo a desprezá-la (por deixar de fornecer-lhe: comida, vestimenta ou obrigações sexuais) então a mesma poderia ir embora livre. Isso parece justo não é mesmo? Porém a mesma não teria direito a levar absolutamente nada. Como se sustentar? Dificilmente outro homem iria querê-la.
     Entre outras coisas, as leis eram bem patriarcais, ou seja: homens tinham direito a tudo, suas mulheres eram consideradas (e até mesmo chamadas na bíblia) de sua propriedade. Homens poderiam ter quantas mulheres quisesse, porém caso uma mulher tivesse mais que um homem, a mesma seria ou apedrejada ou queimada. COISAS DA JUSTIÇA DIVINA.

  P.S.:     Muitos podem no entanto alegar que tais registros são de uma época onde estas atitudes eram comuns. O fato que merece consideração é que tais atitudes são determinadas por "deus", fazem parte de sua "palavra", são suas leis e ordens que estão sendo dadas ao seu povo. Não há como remove-las (apesar de desconfiar que muitos gostariam de fazê-lo). Assim, quando no futuro ouvir um ministro religioso citando partes bonitas da bíblia (sim estas também estão lá), não se esqueça dos pontos aqui destacados.

Referências: Levítico 25:44-46; Deuteronômio 13:15-16; Deuteronômio 15:12 (a liberdade somente era válida para pessoas da própria nação); Oséias 13:16 (decepar crianças, estripar mulheres grávidas); Isaias 13:15-16 (veja que este texto menciona até mesmo o estupro); Isaias 13-18.

N.E.: Muitos podem alegar que seria necessário ver o contexto dos fatos. Pois bem, o contexto envolvido em todo barbarísmo citado nos livros de Oseias e Isaias retratam uma punição divina ao povo, devido a sua desobediência em adorá-lo.

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